
Rússia procura reforçar influência em África com novos acordos de cooperação
Cimeira de Moscovo terminou com compromissos nas áreas da energia, mineração, agricultura, segurança e inteligência artificial. Líderes africanos defenderam maior representação internacional, transferência de tecnologia e transformação local dos recursos naturais.
A Rússia pretende aprofundar a sua presença económica, política e estratégica em África, através do reforço da cooperação nos sectores da energia, mineração, agricultura, transportes, segurança e tecnologia. A orientação ficou expressa na III Cimeira Rússia – África, que terminou ontem, quinta-feira, dia 29, em Moscovo, com a adopção de uma declaração conjunta e de um plano de acção para o período 2027-2029.
O encontro, que reuniu representantes de 48 países africanos, dos quais 22 estiveram representados pelos respectivos chefes de Estado, – Angola esteve representada pelo Ministro de Estado e chefe da Casa Civil do Presidente da República, Dionísio Manuel Fonseca – serviu para reafirmar a intenção de Moscovo de consolidar as relações com o continente, num contexto internacional marcado pela disputa de influência entre as principais potências mundiais.
O Presidente russo, Vladimir Putin, apresentou a Rússia como um parceiro disponível para desenvolver relações assentes no respeito pela soberania dos Estados e na igualdade entre as partes, defendendo uma ordem internacional multipolar e criticando aquilo que classificou como práticas neocoloniais das potências ocidentais.
Entre as prioridades apontadas por Putin está o aumento das trocas comerciais, que ultrapassaram os 27 mil milhões de dólares em 2025, bem como a expansão das exportações russas de cereais e fertilizantes para os mercados africanos. A cooperação deverá igualmente abranger a exploração de recursos minerais, a construção de infra-estruturas, a produção energética e a formação de quadros especializados.
A energia nuclear civil constitui outra das áreas em que Moscovo pretende alargar a sua intervenção, através de projectos de produção de electricidade, incluindo centrais nucleares e pequenos reactores modulares.
Na vertente da segurança, Putin referiu que a Rússia mantém acordos de cooperação militar e técnico-militar com 45 países africanos, manifestando disponibilidade para aprofundar a formação de efectivos e a colaboração no combate ao terrorismo e às ameaças à segurança regional.
África exige maior participação na economia mundial
Do lado africano, a cimeira foi também uma oportunidade para reivindicar uma alteração do posicionamento do continente na economia internacional. Os representantes africanos defenderam que os países da região devem deixar de desempenhar predominantemente o papel de fornecedores de matérias-primas e passar a participar nas etapas de transformação industrial, investigação e produção de bens com maior valor acrescentado.
O presidente da Comissão da União Africana, Mahmoud Ali Youssouf, destacou a necessidade de reformar as instituições financeiras internacionais, nomeadamente o Fundo Monetário
Internacional e o Banco Mundial, e de assegurar uma representação mais expressiva de África no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
A transferência de tecnologia, o acesso ao financiamento, a industrialização e a valorização dos recursos naturais estiveram igualmente entre as prioridades apresentadas pelos representantes africanos.
O Presidente queniano, William Ruto, defendeu, por seu lado, que o continente precisa de reforçar a sua capacidade produtiva e industrial, deixando de depender essencialmente da exportação de matérias-primas.
Esta posição reflecte uma preocupação transversal a várias economias africanas, que procuram aproveitar a disponibilidade de recursos naturais para desenvolver cadeias de valor locais, criar emprego e reduzir a dependência das importações.
Plano de acção para 2027-2029
A cimeira terminou com a adopção de três documentos, incluindo uma declaração conjunta, uma declaração sobre inteligência artificial e um plano de acção para o período 2027-2029.
Os documentos estabelecem as principais orientações para a cooperação entre Moscovo e os países africanos nos próximos anos, com destaque para a energia, agricultura, mineração, transportes, educação, investigação científica e segurança.
A inteligência artificial passou também a integrar formalmente a agenda de cooperação, numa altura em que os países procuram desenvolver capacidades tecnológicas e reduzir a dependência de soluções externas.
Os participantes manifestaram ainda oposição à aplicação de sanções unilaterais e ao congelamento ou confisco de activos soberanos fora dos mecanismos previstos pelo direito internacional, uma posição que reflecte preocupações partilhadas por Moscovo e por vários países africanos.
Disputa de influência no continente
A aproximação entre a Rússia e África insere-se num cenário de crescente competição geopolítica pelo acesso aos mercados, recursos naturais e parcerias estratégicas do continente.
Para Moscovo, África representa uma oportunidade de alargar os seus mercados de exportação, reforçar alianças diplomáticas e consolidar a cooperação em sectores considerados estratégicos, num período em que as relações com vários países ocidentais continuam condicionadas pela guerra na Ucrânia e pelas sanções internacionais.
O continente africano tem, por outro lado, procurado diversificar os seus parceiros externos, mantendo relações com a Rússia, a China, os Estados Unidos, a União Europeia, a Índia e os países do Golfo.
Apesar dos compromissos anunciados em Moscovo, a concretização das iniciativas dependerá da capacidade de mobilizar financiamento, desenvolver projectos economicamente viáveis e assegurar que a cooperação produza benefícios efectivos para as economias africanas.
O principal desafio será, assim, transformar os entendimentos políticos em investimentos produtivos, infra-estruturas, transferência de conhecimento e oportunidades de emprego, evitando que a intensificação da disputa internacional por África se limite à competição pelo acesso às matérias-primas do continente.