
Gorongosa, em Moçambique, distinguida nos Estados Unidos pelo seu contributo para a conservação da natureza
O Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, foi distinguido com o Prémio Legado E.O. Wilson para a Liderança Transformadora na Conservação, em reconhecimento pelo trabalho de recuperação dos ecossistemas e de desenvolvimento das comunidades locais, realizado ao longo das últimas duas décadas.
O galardão, atribuído pela segunda vez, foi entregue a 12 de Outubro, durante o Half-Earth Day 2026, numa cerimónia realizada no Sanders Theatre, da Universidade de Harvard, em Cambridge, no Estado norte-americano de Massachusetts. Aurora Malene, presidente do Projecto de Restauração da Gorongosa, recebeu a distinção em representação dos cientistas, fiscais e equipas que trabalham no parque e junto das comunidades circundantes.
A Gorongosa sucede ao actor e conservacionista Harrison Ford, distinguido na edição inaugural, realizada em Chicago, em 2025. Ford, vice-presidente da organização Conservation International, destacou o trabalho desenvolvido em Moçambique e considerou que o projecto merece o reconhecimento internacional.
“O Ed Wilson adorava a Gorongosa. Dizia que estava tal como era antes da chegada da humanidade”, afirmou o actor, sublinhando que o projecto envolve fiscais, cientistas, professores, médicos e jovens moçambicanos empenhados em preservar o património natural do país.
Criado pela Fundação E.O. Wilson para a Biodiversidade, o prémio homenageia o legado do biólogo norte-americano Edward O. Wilson (1929-2021), professor de Harvard, especialista em formigas e duas vezes vencedor do Prémio Pulitzer, frequentemente considerado uma das figuras mais influentes da investigação sobre a biodiversidade.
Ao receber a distinção, Aurora Malene salientou que o sucesso da restauração ambiental não deve ser avaliado apenas pela recuperação das espécies e dos habitats, mas também pelas oportunidades criadas para as populações. “Talvez a maior medida da restauração não seja apenas aquilo que trazemos de volta. É aquilo que tornamos possível”, afirmou.
Da devastação da guerra à recuperação dos ecossistemas
A distinção reconhece o percurso de recuperação do Parque Nacional da Gorongosa, profundamente afectado pela guerra civil moçambicana. De acordo com os dados divulgados pelo parque, entre 1972 e 2000 a área protegida perdeu mais de 90% dos seus grandes animais, devido ao conflito e às suas consequências.
O processo de restauração ganhou novo impulso com a parceria entre o Estado moçambicano e a Fundação Carr, depois de o filantropo norte-americano Greg Carr ter celebrado, em 2008, um acordo com o Governo para a restauração do parque.
Desde então, a Gorongosa tornou-se uma referência internacional na recuperação de ecossistemas. Segundo os dados apresentados pelo projecto, a biomassa da fauna bravia supera actualmente os níveis registados na década de 1960, antes da guerra, enquanto a população de leões aumentou de menos de dez exemplares, em 2004, para mais de 250.
Investigação científica e formação de jovens moçambicanos
A investigação científica e a formação de quadros nacionais constituem outros pilares do projecto. Mais de 80 universidades realizaram trabalhos de investigação na região, entre as quais Harvard, Princeton, Stanford, Oxford, Cambridge e Lyon.
Os investigadores identificaram mais de oito mil espécies na paisagem da Grande Gorongosa, cerca de 200 das quais consideradas novas para a ciência. Os trabalhos realizados no local deram origem a mais de uma centena de artigos científicos e contribuíram para descobertas com projecção internacional, incluindo estudos sobre a evolução dos elefantes sem presas, associada a décadas de caça furtiva.
A ligação de Edward O. Wilson à Gorongosa começou em 2008. O biólogo visitou o parque em três ocasiões, participou em trabalhos de campo, apoiou a formação de jovens investigadores moçambicanos e dedicou parte da sua obra ao local, nomeadamente no livro A Window on Eternity, publicado em 2014.
A atribuição do prémio reforça, assim, a projecção internacional da Gorongosa como exemplo de conservação da natureza associada à investigação científica e ao desenvolvimento das comunidades locais.