
Dom Imbamba apela ao perdão e à reconciliação essenciais para consolidação da paz
Dom Imbamba fez, contudo, uma distinção entre perdoar e ignorar a injustiça. Perdoar, explicou, não significa negar a existência do erro, apagar a verdade ou fingir que determinado sofrimento não aconteceu. “Perdoar não significa dizer que a injustiça não existiu. O que doeu, doeu mesmo. O perdão impede, sim, que a minha dor passe a gerir a minha vida”, afirmou.
O perdão, a reconciliação social, a paz e a transformação das consciências devem ocupar um lugar central no processo de construção de uma sociedade angolana mais coesa, defendeu Dom José Manuel Imbamba, Arcebispo de Saurimo e presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), ontem, domingo, dia 13, durante a Peregrinação Internacional ao Santuário de Fátima, em Portugal.
Para o arcebispo, o perdão não deve ser entendido apenas como uma reacção emocional, mas como uma escolha consciente. “O perdão não é um sentimento, é uma tomada de decisão”, afirmou.
Na sua reflexão, rejeitou igualmente uma concepção do amor e da misericórdia baseada numa lógica de contabilização das ofensas. O perdão, sustentou, não pode depender de uma espécie de balanço entre aquilo que cada pessoa sofreu e aquilo que está disposta a conceder.
Dom Imbamba fez, contudo, uma distinção entre perdoar e ignorar a injustiça. Perdoar, explicou, não significa negar a existência do erro, apagar a verdade ou fingir que determinado sofrimento não aconteceu. “Perdoar não significa dizer que a injustiça não existiu. O que doeu, doeu mesmo. O perdão impede, sim, que a minha dor passe a gerir a minha vida”, afirmou.
Romper com o ciclo da vingança
Na mesma intervenção em Fátima, o presidente da CEAST alertou para os efeitos prolongados do ressentimento e da vingança, considerando que estes sentimentos podem manter pessoas e sociedades presas a acontecimentos do passado. “Quem vive para a vingança fica prisioneiro do passado”, afirmou.
A ideia foi enquadrada numa reflexão mais ampla sobre a paz, que, segundo o prelado, não pode ser reduzida à ausência de conflitos armados. As guerras, as divisões sociais e aquilo que classificou como a “aridez dos corações” são, na sua perspectiva, manifestações de uma ausência de paz que também se expressa no quotidiano das sociedades.
A reconciliação surge, assim, não apenas como uma exigência religiosa, mas como uma condição para a convivência social e para a construção de relações mais estáveis entre cidadãos e comunidades.
Transformar consciências para mudar a sociedade
Já em Agosto de 2026, em Luanda, Dom José Manuel Imbamba tinha insistido na necessidade de uma transformação profunda das consciências como condição para produzir mudanças concretas na sociedade angolana.
O arcebispo defendeu que a paz social começa pela paz interior e pela capacidade de cada cidadão respeitar o outro na convivência quotidiana.
Neste contexto, atribuiu à Igreja um papel que ultrapassa a transmissão de mensagens religiosas, defendendo uma intervenção permanente na formação humana e na promoção de valores capazes de fortalecer o tecido social.
Para Dom Imbamba, as mensagens e acções da Igreja devem produzir uma renovação contínua. O objectivo fundamental, sustentou, é a “transformação de consciências”, capaz de gerar comportamentos diferentes e, consequentemente, mudanças reais na sociedade.
A reflexão do presidente da CEAST ganha particular significado no contexto das comemorações dos 50 anos da independência de Angola, que o país assinala em 2025-2026.
Nas suas intervenções sobre o percurso político e social angolano, Dom Imbamba tem defendido que a efeméride não deve limitar-se a uma sucessão de celebrações oficiais. O marco histórico, na sua perspectiva, deve constituir sobretudo uma oportunidade para uma avaliação do caminho percorrido, das metas alcançadas e dos desafios que continuam a marcar a vida dos angolanos.
O prelado tem apelado, por isso, a uma reflexão que conduza a acções concretas, advertindo implicitamente para o risco de as comemorações se esgotarem em discursos sem efeitos práticos na vida das populações.
A posição traduz uma visão da Igreja Católica que procura combinar a preservação da memória histórica com a necessidade de olhar para o futuro, colocando no centro questões como a reconciliação, a justiça, a paz e a responsabilidade das instituições.