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Deve haver alinhamento entre tecnologia e realidade local na África Subsaariana, defende especialista

A investigadora moçambicana Íris de Brito defendeu a necessidade de alinhar o “desenvolvimento tecnológico com as realidades locais” na África Subsaariana, sublinhando que a inclusão digital e o progresso sustentável dependem da adaptação das soluções às condições concretas das populações.

De acordo com a agência Lusa, a professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa afirmou que a tecnologia só cumpre o seu papel quando contribui efectivamente para a melhoria das condições de vida, alertando que o simples acesso a equipamentos ou plataformas não garante inclusão.

“A acessibilidade não se resume à disponibilização de dispositivos ou ‘software’, mas também à forma como as tecnologias são introduzidas e utilizadas pelas pessoas”, referiu. No que respeita à inteligência artificial, Íris de Brito considerou que esta pode representar uma oportunidade relevante para o continente africano, sobretudo em sectores como a saúde, educação e serviços financeiros. Ainda assim, advertiu que o uso destas ferramentas sem o devido enquadramento educativo pode gerar dependências e não promover o desenvolvimento individual.

A investigadora destacou que, em várias regiões da África Subsaariana, particularmente nas zonas rurais, persistem constrangimentos estruturais, como a falta de acesso à electricidade, que limitam a disseminação tecnológica. Apesar disso, apontou exemplos de iniciativas locais que têm permitido mitigar estas dificuldades, como o projecto Tablet Comunitário em Moçambique, implementado há cerca de uma década para facilitar o acesso digital em comunidades remotas.

População envelhecida e mulheres com menos acesso ao digital

Segundo a especialista, soluções como consultas médicas virtuais ou plataformas digitais de microcrédito já demonstram impactos positivos, ao facilitar o acesso a serviços essenciais em contextos onde estes são escassos ou inexistentes. Dados do índice E-Government Development Index (EGDI) indicam que países como Gana, Quénia e Cabo Verde têm registado progressos na digitalização dos serviços públicos, enquanto outros, como Guiné-Bissau, Moçambique e Guiné Equatorial, continuam a enfrentar maiores dificuldades, reflexo de limitações económicas, políticas e sociais.

Íris de Brito alertou ainda para a persistência de desigualdades no acesso às tecnologias, que afectam sobretudo populações mais envelhecidas, mulheres e comunidades geograficamente isoladas, advertindo que o fosso digital tende a agravar-se sem intervenção pública.

“As ferramentas tecnológicas são fundamentais para a participação activa na vida pública e na sociedade”, afirmou, defendendo um papel mais interventivo do Estado na promoção da inclusão. A investigadora sublinhou também o impacto das plataformas digitais na mobilização cívica, referindo exemplos como o movimento #EndSARS, na Nigéria, em 2020, e os protestos pós-eleitorais em Moçambique, em 2024, onde as redes sociais foram determinantes para amplificar vozes e denunciar irregularidades.

Contudo, alertou para os riscos associados à desinformação, sobretudo em contextos onde o acesso a fontes credíveis é limitado, sublinhando a necessidade de reforçar a literacia digital. Questionada sobre os modelos de ensino tecnológico, defendeu que estes devem ser adaptados às especificidades culturais e sociais africanas, rejeitando a simples replicação de abordagens ocidentais. Íris de Brito concluiu que o desenvolvimento sustentável no continente passa, inevitavelmente, pelo investimento na educação, como base para uma cidadania mais informada, participativa e consciente.

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