
Corredor do Lobito é fundamental para a integração ferroviária regional, diz AFC
A Corporação Financeira Africana (AFC, sigla em inglês) considerou, esta segunda-feira, dia 9, em Luanda, que o Corredor do Lobito é “fundamental” para melhorar as ligações ferroviárias na África Austral e fomentar a transformação da região, deixando de ser apenas exportadora de recursos naturais.
“O desenvolvimento do Corredor do Lobito é fundamental não só para as exportações de cobre, mas também para desbloquear o investimento privado ao longo do corredor que liga a República Democrática do Congo (RDC), Angola e Zâmbia”, lê-se no Compêndio de Recursos Minerais Estratégicos de África, divulgado pela AFC, uma entidade vocacionada para potenciar investimentos estratégicos em infra-estruturas e indústria no continente africano.
No documento, a instituição financeira multilateral africana pretende demonstrar a necessidade de uma mudança estrutural na maneira como os países olham para os seus recursos, defendendo que é preciso “um melhor planeamento regional e uma abordagem mais integrada para o desenvolvimento mineral de África.”
Assim, em vez da lista de minerais naturais tradicionalmente apresentada como necessária à transição energética, centra-se “no desenvolvimento de infra-estruturas, industrialização, sistemas energéticos, segurança alimentar e resiliência da indústria transformadora”, defendendo que os minerais só são importantes enquanto alimento para sistemas económicos nacionais e regionais.
Modernização dos corredores ferroviários existentes tão importante como desenvolvimentos de novos
“A modernização e densificação dos corredores ferroviários existentes é tão importante quanto o desenvolvimento de novos corredores”, argumentam os autores, afirmando: “O Corredor Logístico de Nacala entre o Malawi e Moçambique, por exemplo, pode servir como espinha dorsal regional se for ampliado através de ligações como Serenje-Chipata (Zâmbia-Malawi) e Harare-Moatize (Zimbabwe-Moçambique)”.
Para além dos corredores ferroviários, no Compêndio de Recursos Minerais Estratégicos de África, divulgado pela AFC, argumenta-se também que é preciso garantir infra-estruturas de energia ao longo das áreas das ferrovias, que assim seriam transformadas em corredores económicos. “Angola tem aproximadamente 2 gigawatts de energia hidroeléctrica não aproveitada, que poderia ancorar um novo eixo energético ao longo do Corredor do Lobito, para leste, e apoiar o desenvolvimento de metais e fertilizantes em todo o Golfo da Guiné, para norte, desde que sejam construídas novas linhas de transmissão para ligar a produção aos centros de procura”, referiu a AFC.
Nas referências aos países lusófonos ricos em minerais, nomeadamente Angola e Moçambique, o documento aponta a importância de retirar risco aos investimentos privados, mas também à necessidade de os Governos harmonizarem a legislação e terem uma abordagem regional às cadeias de valor que podem ser construídas a partir dos recursos naturais africanos, principalmente na África Austral. “A participação do continente nas cadeias
de abastecimento de minerais estratégicos deve agora evoluir de projectos isolados e orientados para a exportação para plataformas apoiadas em infra-estruturas, integradas regionalmente e alinhadas com as políticas”, considerou a AFC.
África detém 20% dos reservas minerais mundiais
África, argumentam os autores do relatório, “já está a passar de um potencial latente para um posicionamento activo”, apontando que “a primeira refinaria de terras raras do continente está prevista para Angola, e Moçambique emergiu como fornecedor da maior cadeia de abastecimento de grafite natural e material anódico fora da China.”
Todos estes recursos minerais, salientam ainda, “estão na base dos sistemas industriais modernos, apoiando a siderurgia, os sistemas energéticos, a produção de fertilizantes, os materiais de construção, os equipamentos de transporte e as actividades industriais emergentes e, como tal, oferecem às economias africanas um caminho para ir além da extracção enclausurada, rumo a modelos de crescimento mais diversificados, resilientes e ancorados na indústria.”
Recorde-se que África tem 29,5 biliões de dólares norte-americanos em reservas minerais, cerca de 20% do total mundial, mas 8,6 biliões equivalem a recursos por explorar, segundo o relatório.