
Com guerra no Médio Oriente rota africana recupera importância estratégica
A nova instabilidade no Médio Oriente está, mais uma vez, a redesenhar os mapas do comércio global e da aviação, levando companhias marítimas e aéreas a optarem por rotas mais longas e dispendiosas que passam por África, revela a publicação ‘Business Insider Africa’.
Uma prova disso é que a gigante dinamarquesa do transporte marítimo Maersk anunciou, na última sexta-feira, dia 27, que irá desviar temporariamente algumas das suas embarcações pelo Cabo da Boa Esperança (África do Sul), evitando o Canal de Suez (Egipto) após enfrentar o que descreveu como “constrangimentos imprevistos” na região do Mar Vermelho.
A decisão representa um revés. Ainda em Fevereiro passado, a segunda maior transportadora mundial de contentores tinha iniciado um regresso gradual à rota do Suez, considerada crucial para aliviar dois anos de perturbações nas cadeias de abastecimento, desencadeadas por ataques a navios por parte dos rebeldes Houthi do Iémen. “Após conversações com os nossos parceiros de segurança, ficou claro que estes constrangimentos estão a dificultar a passagem pela área sem atrasos”, afirmou a Maersk em comunicado, sem fornecer mais detalhes.
O novo desvio pelo sul de África surge num momento em que o tráfego aéreo no Médio Oriente enfrenta graves interrupções, na sequência de ataques contínuos dos Estados Unidos da América (EUA) e de Israel contra o Irão, bem como de retaliações na região.
De acordo com a plataforma FlightRadar24, deixaram de se registar voos sobre os Emirados Árabes Unidos (EAU) após as autoridades anunciarem um “encerramento temporário e parcial” do seu espaço aéreo. Aeroportos no Dubai, Abu Dhabi e Qatar suspenderam operações, provocando milhares de cancelamentos por parte de grandes companhias, incluindo a British Airways e a Virgin Atlantic.
No início deste mês, vários órgãos de comunicação social internacionais confirmaram que os ataques norte-americanos e israelitas ao Irão, bem como as retaliações subsequentes, levaram ao encerramento extensivo de espaços aéreos no Médio Oriente. Companhias do Golfo suspenderam operações em importantes centros como Dubai, Abu Dhabi e Doha, enquanto transportadoras de todo o mundo cancelaram ou desviaram voos para evitar a zona de conflito.
Estas interrupções deixaram dezenas de milhares de passageiros retidos e forçaram companhias como a Lufthansa e a Air India, entre outras, a suspender serviços e procurar rotas alternativas para manter as ligações entre a Europa, a Ásia e os EUA, evitando o espaço aéreo encerrado ou restrito sobre o Irão, o Iraque e outros Estados afectados.
Com os corredores marítimos e aéreos sob pressão, a passagem pelo sul de África volta a emergir como alternativa estratégica. Embora a maioria das reportagens destaque cancelamentos e encerramentos, a Associated Press sublinha que os desvios e redireccionamentos de voos se estenderam por regiões como a Europa, Ásia e África, à medida que as companhias contornam as zonas de exclusão aérea.
Oportunidades e desafios para África
Além disso, fontes de análise da aviação indicam que as transportadoras estão a utilizar cada vez mais corredores meridionais mais longos, incluindo rotas via Oman, Arábia Saudita e
Egipto, contornando o espaço aéreo fechado no Médio Oriente e cruzando ou tangenciando o espaço aéreo africano para manter as ligações entre os principais mercados globais.
O Aeroporto Internacional do Dubai, o mais movimentado do mundo em tráfego internacional, esteve entre as infra-estruturas afectadas. Entretanto, o Irão, Israel, Qatar, Iraque, Kuwait e partes da Síria e da Jordânia também encerraram ou restringiram o seu espaço aéreo.
Com os corredores marítimos e aéreos sob pressão, a passagem pelo sul de África volta a emergir como alternativa estratégica. No entanto, a rota pelo Cabo acrescenta tempo significativo e maiores custos de combustível para as transportadoras marítimas, enquanto as companhias aéreas enfrentam trajectos mais longos, aumentando tarifas e complexidade operacional.
Para os portos e centros de aviação africanos, o desvio representa simultaneamente uma oportunidade e um desafio. O aumento do tráfego pode impulsionar receitas portuárias e a procura de abastecimento de combustível, mas também coloca à prova a resiliência das infra-estruturas.
À medida que as tensões geopolíticas se intensificam, as redes logísticas globais voltam a ficar vulneráveis aos conflitos — com África posicionada como o desvio crítico num cenário comercial fragmentado.