
Cimeira da União Africana em Luanda procura resposta africana para os conflitos no continente
A reunião, que decorre nos dias 29 e 30 de Agosto, foi convocada por iniciativa de Angola, num momento em que o continente enfrenta vários focos de instabilidade e em que a capacidade das instituições africanas para prevenir e resolver conflitos é colocada à prova.
Luanda transforma-se, este fim-de-semana, no centro da diplomacia africana, com a realização da 21.ª Sessão Extraordinária da Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana (UA), dedicada ao reforço dos mecanismos de prevenção e resolução de conflitos em África.
A reunião, que decorre nos dias 29 e 30 de Agosto, foi convocada por iniciativa de Angola, num momento em que o continente enfrenta vários focos de instabilidade e em que a capacidade das instituições africanas para prevenir e resolver conflitos é colocada à prova.
Mais do que uma cimeira para analisar os conflitos existentes, Luanda pretende colocar em discussão a própria arquitectura africana de paz e segurança e encontrar formas de tornar os instrumentos de prevenção, mediação e resolução de crises mais eficazes.
Da gestão das crises à prevenção
Uma das principais expectativas em torno da reunião é uma mudança de abordagem: fazer com que África deixe de actuar sobretudo depois de os conflitos já terem atingido níveis elevados de violência e passe a investir mais na sua prevenção.
A actual arquitectura de paz e segurança do continente dispõe de mecanismos de alerta precoce, mediação e operações de apoio à paz, mas enfrenta dificuldades de financiamento, coordenação e capacidade de intervenção.
Análises recentes defendem precisamente uma maior aposta na chamada prevenção “a montante”, que procura actuar sobre factores políticos e sociais antes de estes evoluírem para conflitos armados. Entre esses factores estão a exclusão política, tensões comunitárias, disputas por recursos, crises eleitorais e fragilidades institucionais.
A questão que se coloca em Luanda é, por isso, como transformar esses mecanismos em instrumentos capazes de antecipar crises e produzir respostas mais rápidas.
Sudão no centro das atenções
Entre os conflitos que deverão pesar nas discussões está a guerra civil no Sudão, iniciada em Abril de 2023 e que continua a provocar uma grave crise humanitária.
A África do Sul já indicou que apoia a utilização da cimeira de Luanda para reforçar os esforços de resolução do conflito sudanês, colocando o país entre as questões que deverão merecer atenção dos líderes africanos.
O desafio para a União Africana será recuperar espaço diplomático e capacidade de influência num conflito que envolve diferentes actores nacionais e externos e que tem produzido sucessivas iniciativas de mediação.
RDC e Grandes Lagos
A situação no leste da República Democrática do Congo (RDC) deverá igualmente fazer parte das conversações. A região dos Grandes Lagos continua a representar um dos maiores desafios
à paz continental, com a persistência de dezenas de grupos armados – com destaque para o M23 apoiando pelo vizinho Ruanda –, deslocações populacionais e tensões entre países vizinhos.
Durante os preparativos para a cimeira, a liderança da Comissão da União Africana abordou com o ministro angolano das Relações Exteriores, Tete António, a evolução da situação no leste da RDC, no Sahel e nas operações africanas de apoio à paz. Na ocasião, o presidente da Comissão da UA reconheceu o papel desempenhado pelo Presidente João Lourenço na promoção da paz e estabilidade regional.
Para Angola, que tem procurado assumir um papel de mediador nas questões dos Grandes Lagos, a cimeira representa também uma oportunidade para reforçar a sua posição diplomática.
O desafio do Sahel
Outro grande dossier é a instabilidade no Sahel, onde golpes de Estado, conflitos armados, terrorismo e a fragilização da cooperação regional alteraram profundamente o equilíbrio político e securitário da região.
A dificuldade da União Africana em manter uma política continental coerente perante a evolução política de países como Mali, Burquina Faso e Níger constitui um dos testes à sua capacidade de resposta.
A questão não é apenas militar. O combate aos grupos armados exige também respostas políticas, económicas e sociais, sobretudo em regiões onde a pobreza, a fragilidade das instituições e a ausência do Estado alimentam a instabilidade.
Financiamento continua a ser problema
Por detrás de quase todas as discussões sobre paz e segurança em África está uma questão essencial: quem paga pelas operações e pelos mecanismos de prevenção e resolução de conflitos?
A dependência de financiamento externo limita a capacidade da União Africana de definir e executar autonomamente as suas prioridades.
Por isso, uma das perspectivas para a cimeira é o reforço da mobilização de recursos africanos e a procura de mecanismos que permitam financiar de forma mais sustentável a arquitectura continental de paz e segurança. Sem recursos, alertas precoces, mecanismos de mediação e operações de paz dificilmente poderão transformar-se numa capacidade efectiva de intervenção.
Angola procura consolidar liderança diplomática
Para Angola, a cimeira tem uma importância que ultrapassa a organização de um grande encontro internacional. O país procura consolidar a imagem de actor relevante na diplomacia africana e reforçar o papel que tem procurado desempenhar na prevenção e resolução de conflitos, particularmente na região dos Grandes Lagos.
A realização da reunião em Luanda surge depois de Angola ter acolhido, em Novembro de 2025, a cimeira União Europeia-União Africana, reforçando a posição da capital angolana como espaço de diálogo diplomático de dimensão continental e internacional. A própria Comissão da União Africana tem destacado o contributo de Angola para a promoção da paz e estabilidade no continente.
O verdadeiro teste começa depois da cimeira
Apesar das expectativas, o principal desafio será evitar que a reunião termine apenas com uma declaração política. A realização de uma cimeira extraordinária exclusivamente dedicada à prevenção e resolução de conflitos constitui, por si só, um reconhecimento de que a actual resposta africana precisa de ser reforçada. Mas o seu impacto dependerá das decisões que forem adoptadas e, sobretudo, da capacidade dos Estados-membros de as executar.
Entre os resultados mais importantes estarão a criação ou reforço de mecanismos de alerta precoce, maior capacidade de mediação, melhor coordenação entre a União Africana e as organizações regionais e um financiamento mais sustentável das iniciativas africanas de paz.
A cimeira poderá ainda abrir espaço para uma discussão sobre a relação entre segurança, desenvolvimento e governação, reconhecendo que muitos conflitos africanos têm origem em problemas que ultrapassam a dimensão militar.
Uma oportunidade para redefinir a segurança africana
Luanda recebe, assim, uma cimeira que acontece num momento particularmente delicado para o continente. África enfrenta simultaneamente guerras, golpes de Estado, terrorismo, crises humanitárias, deslocações forçadas e disputas políticas. A capacidade de resposta da União Africana será, por isso, um dos temas centrais do encontro.
A grande questão será saber se os líderes africanos conseguirão aproveitar a reunião para passar da gestão das crises para a prevenção dos conflitos e da dependência de respostas externas para uma maior capacidade africana de intervenção.
Para a União Africana, será uma oportunidade para demonstrar que a promessa de uma “solução africana para os problemas africanos” pode transformar-se em mecanismos concretos, financiados e capazes de produzir resultados.