
OMS alerta que estigmatização de migrantes pode agravar riscos de saúde pública
Perante situações de chegada massiva de migrantes, o responsável da OMS defendeu que as autoridades, tanto do lado marroquino como do espanhol, devem adoptar medidas baseadas no risco e em evidências científicas, evitando critérios relacionados com a nacionalidade ou o estatuto legal das pessoas.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) alertou para os riscos que a estigmatização de migrantes pode representar para a saúde pública, sobretudo em situações de emergência, como a registada recentemente em Ceuta, território espanhol situado no Norte de África.
Adham Ismail, responsável do escritório regional da OMS para o Mediterrâneo Oriental, com sede no Cairo, advertiu que o medo de ser identificado, denunciado ou associado a uma doença pode levar pessoas a afastarem-se dos serviços de saúde, dificultando o diagnóstico e o tratamento de doenças potencialmente curáveis.
“O que mais me preocupa, mais do que qualquer microrganismo, é o estigma”, afirmou o responsável, em declarações à agência de notícias espanhola EFE.
Segundo Ismail, quando existe confiança no sistema de saúde, as pessoas tendem a procurar assistência mais cedo, são diagnosticadas atempadamente e têm maiores possibilidades de completar os tratamentos.
Perante situações de chegada massiva de migrantes, o responsável da OMS defendeu que as autoridades, tanto do lado marroquino como do espanhol, devem adoptar medidas baseadas no risco e em evidências científicas, evitando critérios relacionados com a nacionalidade ou o estatuto legal das pessoas.
“Medidas generalizadas não devem ser aplicadas a um grupo inteiro, nem se deve usar uma linguagem que associe as pessoas às doenças”, sublinhou.
A preocupação com possíveis surtos de doenças pode ser compreensível perante a chegada de dezenas de milhares de pessoas num curto período de tempo. Contudo, Ismail lembrou que a maioria dos migrantes é jovem e saudável quando inicia a viagem.
As condições encontradas durante o percurso, porém, podem aumentar a exposição a determinados problemas de saúde. A falta de água potável, a impossibilidade de manter condições adequadas de higiene, a permanência ao relento, a sobrelotação e a falta de alimentação podem favorecer o aparecimento de infecções cutâneas, como a sarna, doenças diarreicas e respiratórias, além de exaustão provocada pelo calor e ferimentos.
O alerta surge depois de as autoridades de Ceuta terem informado, na quarta-feira, que foram identificados oito casos de tuberculose, 15 de varicela e um surto de 29 casos de sarna entre a população que entrou no território espanhol através da fronteira com Marrocos.
Os casos foram registados depois da entrada, em Julho, de cerca de 70 mil migrantes provenientes de Marrocos.
Tuberculose exige resposta baseada em evidências
Em relação à tuberculose, Adham Ismail salientou que existem evidências científicas consistentes sobre a forma como a doença se manifesta entre populações migrantes.
Segundo o especialista, em países com baixa incidência da doença, como Espanha, muitos dos casos identificados entre migrantes estarão provavelmente relacionados com a reactivação de infecções contraídas anos antes, não significando necessariamente uma transmissão posterior.