
Oceanos aquecem a um ritmo nunca visto
O aquecimento dos oceanos está a acelerar, com efeitos cada vez mais visíveis sobre os ecossistemas marinhos, o litoral e as comunidades que dependem do mar. A conclusão consta do 10.º Relatório sobre o Estado do Oceano, elaborado no âmbito do programa europeu Copernicus e divulgado ontem, terça-feira, dia 29.
Produzido pela Mercator Ocean International, o relatório reúne contributos de 125 cientistas de todo o mundo e recorre aos dados mais recentes obtidos por satélite, observações no local e modelos científicos para analisar a evolução dos oceanos.
Segundo o documento, o aquecimento dos oceanos acelerou desde 1960. Em 2025, o oceano absorveu um recorde de 23 zettajoules de energia, quantidade equivalente a cerca de 40 vezes o consumo energético mundial nesse ano.
O relatório aponta igualmente para uma aceleração da subida do nível médio global do mar. Entre 1999 e 2025, o aumento situou-se entre 3,5 e 4,1 milímetros por ano, mas entre 2012 e 2025 passou para valores entre 3,9 e 4,5 milímetros anuais. Ao mesmo tempo, entre 1985 e 2025, a acidez dos oceanos aumentou cerca de 17%.
O Serviço Marinho Copernicus alerta que o aumento da temperatura das águas favorece ondas de calor marinhas, pode intensificar tempestades, perturbar ecossistemas e contribuir para a subida do nível do mar, através da expansão térmica da água e do degelo em terra.
Mediterrâneo sob pressão
Na Europa, os mares regionais estão sujeitos a diferentes níveis de pressão, com algumas zonas a registarem alterações mais rápidas.
No Mediterrâneo, por exemplo, a subida do nível do mar não ocorre de forma uniforme. Segundo Federica Borile, oceanógrafa física da Universidade de Bolonha, o Mediterrâneo Ocidental regista uma aceleração desde o início dos anos 2000, enquanto a bacia Oriental apresenta uma aceleração mais acentuada desde 2018.
A cientista defende que estas diferenças devem ser consideradas no planeamento da adaptação das comunidades costeiras, uma vez que o conhecimento da evolução local do nível do mar é fundamental para antecipar riscos.
Os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (PEID) estão entre as regiões mais expostas às alterações do oceano. O relatório salienta que as suas economias, infra-estruturas e meios de subsistência estão fortemente dependentes do mar.
Todas as Zonas Económicas Exclusivas dos PEID são afectadas pelo aquecimento desde 1960 e cerca de 65% da sua área conjunta está exposta à aceleração da subida do nível do mar desde 1999.
O relatório estima ainda que quase 28% dessa área contém recifes de coral vulneráveis, ameaçados ou em perigo crítico de extinção. Estes ecossistemas desempenham um papel importante na pesca, no turismo e na protecção das zonas costeiras e podem representar mais de 20% do produto interno bruto em alguns destes Estados.