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BNA segura valor do kwanza com uma gestão admnistrativa

Apesar de toda a pressão da procura sobre o mercado cambial, a paridade com o dólar mantém-se na casa dos 827 kz há quase um mês. Mesmo quando nos mercados internacionais a moeda norte-americana ultrapassou o valor do euro, o câmbio oficial não reagiu. Prevê-se uma desvalorização no final de Janeiro.

Vários banqueiros ouvidos pelo pelo Semanário Expansão confirmam que existe uma gestão administrativa do kwanza, que o valor do câmbio não é definido pelo mercado, ou seja, por aquilo que deveria ser o reflexo da oferta e da procura, mas por um valor que o banco central define e que depois “obriga” os intervenientes a cumprir. Além de um mecanismo de exclusão na plataforma Blomberg para operações que estão fora da banda dos valores definidos pelo BNA, também nos confirmam que recebem telefonemas dos quadros superiores da instituição ameaçando com multas e sanções em caso de reincidência.

“Mas sempre foi assim”, explica um dos banqueiros. “Mesmo no tempo dos leilões do BNA, o banco central definia o valor, informava os bancos comerciais dos valores que estavam disponíveis, e distribuía as operações pelos bancos por esse valor ou muito perto. Com a entrada em vigor da plataforma Blomberg passou a avisar os bancos que devem restringir as suas ofertas a determinados valores, os que não cumprem são excluídos e ameaçados com multas e sanções”, sublinha um desses banqueiros.

Basta olhar para as estatísticas do câmbio publicadas pelo BNA para perceber que não reflectem o mercado (ver gráfico). Por exemplo, no final de Outubro houve uma valorização do dólar face ao euro nos mercados internacionais, durante vários dias esteve acima da moeda europeia, mas no câmbio oficial do BNA não houve qualquer alteração. “As últimas operações que fizemos comprámos dólares às petrolíferas sempre acima dos tais 827,716, pelo que sei também aconteceu com outros bancos, mas até hoje não há qualquer alteração do câmbio oficial”, explica outro dos banqueiros.

Esta realidade traz um problema acrescido aos bancos, uma vez que a reavaliação dos activos e passivos é feito com base na taxa do BNA, que é diferente do preço materializado nos negócios. No final quem paga é o cliente, uma vez que se forem contas ao preço líquido da moeda estrangeira nas vendas ou nas transferências, o valor tem vindo a subir nas últimas semanas.

O Expansão pediu há mais três semanas esclarecimentos ao BNA sobre este assunto, mas só agora na conferência de imprensa do Comité de Política Monetária, a uma pergunta directa de um nosso jornalista, o governador Tiago Dias respondeu: “Não temos gestão administrativa da taxa de câmbio. As operações continuam a ser realizadas na plataforma da Bloomberg. Os interveninentes são os mesmos, de um lado as companhias petrolíferas e diamantíferas e de outro lado os bancos comerciais. Infelizmente há um actor importante, o Tesouro, que se retirou do mercado. E com isso muitos dos bancos que realizavam transacções com o Tesouro Nacional passaram a ter acesso limitado a divisas”.

E acrescentou: “Mas temos alguns bancos já com uma relação antiga com as empresas, quer do sector petrolífero, quer diamantífero, que continuam a adquirir divisas. As divisas adquiridas ao nível do sistema no seu todo nos últimos meses tendem a aumentar. Razão pela qual observa-se então a nível do mercado formal a estabilidade da taxa de câmbio. Gostaria de referir que de facto temos uma taxa de câmbio flutuante e o exemplo disso tudo é o que aconteceu nos meses de Maio e Junho. O essencial do ajustamento em decorrência da redução da oferta de moeda estrangeira já ocorreu”.

Confrontados com estas declarações, os banqueiros que nos exigiram anonimato, justificando que “se fazemos declarações públicas sobre esta matéria não nos vendem mais um dólar”, segundo um deles, explicaram-nos que mesmo a valorização que tivemos em 2022 foi feita por via administrativa e não reflectia as operações de mercado. “Foi sempre o BNA a definir o câmbio que se podia comprar ou vender. Tal como aconteceu com a desvalorização de Maio e Junho, pois a justificação da saída abrupta do Tesouro, quando se colocava em média 1.300 milhões USD/mês no mercado, não aconteceu por um motivo imprevisto, todos sabíamos que o pagamento da dívida tinha que acontecer naquelas datas. Por que é que o Tesouro, que em 2022 colocou em média 440 milhões de dólares por mês, não colocou menos e guardou o restante para este ano não ter de sair de um momento para o outro e originar essa desvalorização de forma brutal? São esses os mistérios da política monetária em Angola”, acrescenta.

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