
África lidera claramente lista Top Ten dos deslocados internos, revela relatório norueguês
Anualmente, o Conselho Norueguês para os Refugiados (NRC, sigla em inglês) publica o seu relatório sobre as crises de deslocadas internos – refugiados dentro do próprio país – mais negligenciadas do mundo. Nestes países, milhões de pessoas encontram-se deslocadas, expostas à violência, à fome, à doença e à expropriação.
Segundo o documento produzido pelo NRC, nove dos dez países no top da lista são africanos, sendo a excepção as Honduras, país localizado na América Central.
O Burquina Faso lidera a lista pelo segundo ano consecutivo, seguido dos Camarões, da República Democrática do Congo (RDC), do Mali, do Níger, das Honduras, do Sudão do Sul, da República Centro-Africana, do Chade e do Sudão.
“A total negligência para com as pessoas deslocadas tornou-se um novo normal”, afirmou Jan Egeland, secretário-geral do NRC, numa declaração sobre o conteúdo do relatório. E acrescentou: “As elites políticas e militares locais ignoram o sofrimento que causam e o mundo não fica chocado nem se sente compelido a agir perante histórias de desespero e estatísticas que batem recordes.”
Eis a lista Top Ten:
Burquina Faso
O Burquina Faso tornou-se um epicentro da violência de grupos armados na região central do Sahel, desde o final da década de 2010, com milhares de mortos e centenas de milhares de deslocados internos. O governo tem tido dificuldade em resolver os problemas de segurança do país e o exército tomou o poder através de um golpe de Estado em Setembro de 2022. No ano passado, a violência matou mais de 8.400 pessoas, o dobro do registo do ano anterior, de acordo com o NRC. Até ao final de 2023, cerca de dois milhões de civis estavam confinados em 36 cidades em todo o país.
Camarões
A violência nos Camarões centra-se na repressão, por parte do governo francófono, em relação aos protestos anglófonos contra a marginalização. Em 2016, eclodiu um conflito separatista, quando o governo reprimiu os protestos no noroeste e sudoeste, zonas anglófonas. Desde então, mais de 6 mil pessoas foram mortas nas regiões de língua inglesa. A escalada de violência obrigou mais de um milhão de camaroneses a procurar refúgio noutras paragens, com 1,1 milhões de pessoas deslocadas internamente até ao final de 2023, segundo o NRC. Para além da crescente pressão interna, os Camarões também acolheram refugiados de países vizinhos, testando os limites do país.
República Democrática do Congo
A RDC tem sofrido uma grande violência armada durante décadas, com o governo e actores estrangeiros a fornecerem armas aos beligerantes. Cerca de 6,9 milhões de pessoas encontravam-se deslocadas em toda a RDC até ao final do ano passado, principalmente nas províncias do leste. Desde a escalada das hostilidades em Março de 2022, mais de 1,6 milhões de pessoas foram expulsas das suas casas no Kivu Norte, na região leste do país.
Mali
A retirada, em 2023, de uma força de manutenção da paz de 13.000 efectivos levou a um aumento dos confrontos entre as forças governamentais e os grupos armados no norte do Mali. Deste conflito, resultaram mais de 340.000 pessoas deslocadas internamente em Dezembro de 2023, de acordo com o relatório do NRC.
Níger
Na sequência do golpe de Estado, ocorrido em Julho de 2023, o Níger perdeu o apoio político e financeiro do Ocidente e rompeu os laços com os parceiros regionais, nomeadamente na CEDEAO, organização de onde saiu. A insegurança crescente e os ataques dos grupos rebeldes que actuam nas regiões de Diffa, Maradi, Tahoua e Tillabery obrigaram mais de 335.000 pessoas a abandonar as suas casas. O país também acolheu 290.000 refugiados e mais de 35.000 requerentes de asilo que escaparam aos conflitos nos países vizinhos, segundo o NRC.
Honduras
É a excepção não-africana no Top Ten. Em 2023, a população das Honduras enfrentou violência generalizada e crime organizado, a juntar aos choques climáticos, à pobreza profundamente enraizada e à fome. De acordo com o relatório, quase 250 mil pessoas encontravam-se deslocadas internamente, precisando de apoio alimentar, protecção contra a violência, entre outras necessidades básicas.
Sudão do Sul
O Sudão do Sul tem sido palco de vários conflitos armados desde 2013, altura em que uma disputa política entre o presidente e o vice-presidente levou à violência entre as forças leais a ambos. O declínio económico, as inundações severas, a seca e o conflito iniciado no vizinho Sudão em Abril de 2023, agravaram a situação e conduziram a múltiplos ciclos de deslocação. Mais de quatro milhões de pessoas foram obrigadas a abandonar as suas casas, incluindo 2,2 milhões que fugiram do país, tornando-se refugiados.
República Centro-Africana
A República Centro-Africana (RCA) tem sido fustigada pela violência desde 2013, altura em que os rebeldes do movimento Seleka destituíram o então Presidente François Bozizé, dando origem a represálias por parte de milícias maioritariamente cristãs. O NRC afirma que, embora o conflito interno tenha diminuído ligeiramente, o nordeste da RCA foi afectado pela guerra no Sudão e pela insegurança na zona fronteiriça. De acordo com o relatório, um em cada cinco centro-africanos permaneceu deslocado no país ou tornou-se refugiado no estrangeiro devido à violência actual.
Chade
Após a eclosão da guerra no Sudão, mais de 600 mil pessoas atravessaram a fronteira rumo ao leste do Chade, fugindo dos ataques étnicos no Darfur Ocidental. Antes da crise em questão, o Chade já albergava mais de meio milhão de refugiados de países vizinhos como os Camarões, a RCA e a Nigéria, bem como
do próprio Sudão, refere o NRC, acrescentando que cerca de 200 mil chadianos estão também deslocados no seu próprio país.
Sudão
Milhares de pessoas foram mortas e milhões foram obrigadas a abandonar as suas casas na sequência da guerra entre o exército regular e os paramilitares das Forças de Defesa Rápida que eclodiu em Abril de 2023. Segundo o documento do NRC, 1,4 milhões de pessoas fugiram através da fronteira e mais de oito milhões de pessoas encontram-se deslocadas internamente, o que faz do Sudão o “campeão” dos deslocados internos no mundo.