
Surto de ébola na RDC não constitui ameaça para Angola, refere especialista
O director do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa classificou, na última sexta-feira, dia 22, o surto de Ébola na República Democrática do Congo (RDC) como emergência de saúde pública, mas afastou, para já, riscos significativos para Angola. Filomeno Fortes sublinhou que o foco da epidemia está concentrado no leste da RDC, uma região marcada por conflitos armados, deslocamentos populacionais e fragilidade sanitária.
Angola é um dos países que neste momento não apresenta “grande risco porque o ponto focal dos casos está mais junto do sul do Sudão, do Uganda, e com algum risco para o Ruanda”, referiu o médico.
Esta sexta-feira, o director-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, declarou que “a epidemia de Ébola na RDC está a propagar-se rapidamente” e que o risco passou a “muito elevado a nível nacional, elevado a nível regional e baixo a nível mundial”. “Muito elevado” significa “o nível de risco mais elevado”, disse um porta-voz da Organização Mundial de Saúde à Agência France Presse.
Até à data, “foram confirmados 82 casos, incluindo sete mortes” na RDC, disse Tedros Ghebreyesus, sublinhando que a “epidemia” é, na realidade, “muito mais grave”. Há quase 750 casos suspeitos e 177 mortes suspeitas na RDC. Os números vão evoluindo “à medida que os esforços de vigilância e os testes laboratoriais melhoram, mas a violência e a insegurança estão a dificultar a resposta”, admitiu. O foco da epidemia é na província de Ituri, na RDC, que concentra cerca de um milhão de deslocados em campos de alojamento devido ao conflito no país. De acordo com as autoridades, o vírus provavelmente começou a circular na província de Ituri há dois meses e espalhou-se para as províncias orientais de Kivu do Norte e Kivu do Sul, ambos territórios envolvidos num conflito entre o exército congolês e grupos armados. Perante a insegurança, a resposta sanitária está a ter dificuldade em organizar-se, ainda que a OMS continue a enviar pessoal.
Capacidade de diagnóstico enfraquecida
Entretanto, este sábado, a Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho informou que, pelo menos, três voluntários da Cruz Vermelha morreram no actual surto de ébola na RDC.
Na entrevista à agência Lusa, Filomeno Fortes reiterou que “a assistência médica está fragilizada, não existem infra-estruturas e a capacidade de diagnóstico deste vírus também é muito fraca”. Por outro lado, lembrou que a retirada de apoio por parte dos Estados Unidos “deixou a RDC, à semelhança de outros países, sem capacidade de resposta para este tipo de situação”. Sobre a possibilidade de o vírus chegar a Angola, Filomeno Fortes respondeu que a “essa possibilidade é muito remota, dificilmente a população da RDC consegue chegar a Angola, vindo de uma situação destas.”
Além da RDC, o Uganda confirmou cinco casos (mais três este sábado) e o Sudão do Sul está a realizar testes laboratoriais para confirmar um caso suspeito de Ébola relatado pelas autoridades perto da fronteira com a RDC.
A RDC é regularmente afectada por surtos do vírus Ébola, que se transmite através do contacto directo com sangue ou outros fluidos corporais de pessoas ou animais infectados e provoca febre hemorrágica grave, dores musculares, fraqueza, dores de cabeça, irritação da garganta, febre, vómitos, diarreia e hemorragias internas.
Esta nova epidemia, declarada em 15 de Maio, corresponde a uma nova estirpe do Ébola, a Bundibugyo, para a qual não existe vacina e cuja taxa de mortalidade varia entre 30% e 50%, segundo a OMS. Na ausência de vacina e de tratamento aprovado contra esta estirpe, as directrizes de contenção assentam essencialmente no cumprimento das medidas de barreira e na detecção rápida dos casos.