
Onda de xenofobia retira habitual apoio de cidadãos africanos aos Bafana-Bafana
A habitual demonstração de unidade africana nas fases finais de um Campeonato do Mundo de futebol esteve particularmente ausente das redes sociais, uma vez que muitos adeptos de todo o continente apoiaram o México no jogo de abertura do torneio contra a África do Sul.
A África do Sul teve um desempenho fraco em campo tendo perdido 2-0 diante dos coanfitriões. Assim que soou o apito final, as redes sociais encheram-se de uma avalanche de publicações irónicas. Os memes eram bem-humorados — incluindo sombreros, bandas de mariachi e tacos —, mas revelavam um lado sombrio: as brincadeiras reflectiam a indignação face às notícias de violência xenófoba na África do Sul.
A África do Sul é uma das 10 seleções africanas presentes no Campeonato do Mundo, este ano com um formato alargado a 48 selecções e disputado, pela primeira vez, em três países: EUA, Canadá e México.
Antes do jogo de quinta-feira, alguns adeptos de futebol africanos justificaram o seu apoio ao México, associando-o às actuais tensões na África do Sul em torno da migração. “Querem que os africanos torçam por vocês quando jogam futebol só porque somos africanos?», perguntou um utilizador do X, citando relatos de maus-tratos a migrantes. “Apoiamos o México, esperando que a África do Sul possa voltar para casa mais cedo para proteger os seus empregos», publicou outro utilizador, aproveitando-se da acusação infundada de que os estrangeiros são responsáveis pela elevada taxa de desemprego na África do Sul.
“Espero que a África do Sul não esteja a culpar os migrantes africanos pela derrota por 2-0 e pelos dois cartões vermelhos no jogo contra o México”, escreveu nas redes sociais Ahmednasir Abdullahi, um proeminente advogado queniano.
Houve quem tivesse partilhado memes que, de forma divertida, abraçavam a cultura mexicana nesse dia, mudando as suas fotos de perfil para bandeiras mexicanas e adoptando nomes de origem espanhola, sob a legenda “México contra a xenofobia”.
Daniel Kaniki, um adepto de futebol congolês que se encontrava numa fã zone na cidade norte-americana de Atlanta, disse à BBC: “África é como um único país e, se uns perseguem os outros, deixamos de ser uma família. É por isso que hoje estou a apoiar o México.”
Sudão do Sul continua a apoiar a África do Sul

No entanto, nem todos estavam de acordo. O ganês Vanlare Quist, que também estava fã zone, disse à BBC que apoiava a África do Sul, acrescentando que era “um africano orgulhoso”, atribuindo o sentimento anti-imigrante na África do Sul apenas a alguns indivíduos agitadores.
No Sudão do Sul, junto dos ecrãs gigantes instalados em Juba, a capital, para assistir ao jogo a maioria também apoiava os Bafana-Bafana. Os sudaneses do sul têm uma forte afinidade com a África do Sul, associando a sua luta pela independência em relação ao Sudão à luta contra o domínio da minoria branca na África do Sul.
“Foi lamentável vermos nas redes sociais alguns países africanos a apoiar o México e até a usar camisolas do México. Como sul-sudaneses, estamos do lado da África do Sul e continuaremos a apoiá-la — porque é ela que representa África. Por isso, todos os países africanos devem
apoiar a África do Sul durante este Mundial”, afirmou George Kenyi Charles Rehan, um estudante de 23 anos, à BBC em Juba.
Apesar da derrota, num comunicado, o governo sul-africano elogiou a selecção pelo seu “desempenho enérgico”, acrescentando que, embora o resultado final não tenha sido o que a nação esperava, a equipa “representou a África do Sul com união, determinação e um sentimento de orgulho no maior palco do mundo.”
Os sul-africanos nas redes sociais responderam com firmeza às provocações. “Qualificámo-nos para o Mundial sozinhos, sem o vosso apoio, e quer ganhemos ou percamos, continuaremos a ser sul-africanos que amam o seu país. E os imigrantes ilegais continuarão a deixar o nosso país, quer nos odeiem ou não”, escreveu alguém nas redes sociais. Noutro comentário lia-se: “Podem apoiar o México o quanto quiserem, nós não vamos recuar. Venham para a África do Sul legalmente.”
Na África do Sul, os migrantes de outras partes de África têm sido alvo de violência e intimidação nos últimos dois meses. Grupos anti-imigrantes estabeleceram o prazo de 30 de Junho para que os estrangeiros que vivem ilegalmente no país o abandonem.
O presidente Cyril Ramaphosa advertiu contra a prática de as pessoas fazerem justiça pelas próprias mãos, afirmando que “apenas os funcionários governamentais autorizados podem agir contra as violações da nossa lei.” No entanto, afirmou também que as preocupações dos sul-africanos “merecem ser ouvidas e merecem ser atendidas.”
Na última quarta-feira, a Nigéria tornou-se o mais recente país africano a repatriar alguns dos seus cidadãos da África do Sul. Moçambique , Gana, Zimbabwe e Malawi já efectuaram evacuações dos seus cidadãos, afirmando que estavam a levar a sério as ameaças contra os migrantes.
Recorde-se que muitos cidadãos dos países africanos, sobretudo os que fazem fronteira com a África do Sul escolheram, na esperança de ter uma vida melhor, instalar-se neste país em 1994, após as primeiras eleições multirraciais que deram a vitória ao ANC liderado por Nelson Mandela.
Mas hoje, com uma taxa de desemprego superior a 30%, o sentimento anti-imigração tem crescido exponencialmente, com marchas de protesto a realizarem-se nas principais cidades e pessoas a serem alvo de ataques xenófobos, tendo feito, nos últimos dois meses, mais de duas dezenas mortes.